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domingo, 15 de janeiro de 2012

A verdadeira História da Língua Inglesa no Brasil.


O relacionamento entre Brasil e Inglaterra é tão antigo que se pode dizer que 
se mistura com a própria história de nosso país.  “a presença da cultura britânica no desenvolvimento do Brasil, no espaço, na paisagem, no conjunto da civilização do Brasil, é das que não podem ser 
ignoradas pelo brasileiro interessado na compreensão e na interpretação do Brasil” 
(Freyre, 1922 apud Dias, 1999, p.27).  

O ensino formal da língua inglesa no Brasil teve início com o decreto de 22 
de junho de 1809, assinado pelo Príncipe Regente de Portugal, que mandou criar 
uma escola de língua inglesa. Até então, o grego e o 
latim eram as línguas estrangeiras ensinadas na escola. O texto do decreto diz o 
seguinte:  
E, sendo, outrossim, tão geral e notoriamente conhecida a necessidade de utilizar 
da língua inglesa, como aquelas que entre as vivas têm mais distinto 
lugar, e é de muita utilidade ao estado, para  aumento e prosperidade da instrução 
pública, que se crie na Corte uma cadeira de língua inglesa. 
(Oliveira, 1999 apud Chaves, 2004, p.5).
Ainda no ano de 1809, D. João VI nomeia o Padre irlandês Jean Joyce 
professor de inglês. A carta real assinada por ele diz que “era necessário criar 
nesta capital uma cadeira de língua inglesa, porque, pela sua difusão e riqueza, e o 
número de assuntos escritos nesta língua, a mesma convinha ao incremento e a 
prosperidade da instrução pública” (Almeida, 2000 apud Chaves, 2004, p.6).


Os Ingleses começaram acentuar sua influência e sua cultura no Brasil por volta de 1835 e a 1912. Entre tantas inovações que trouxeram ao nosso país a princípio foram responsáveis por inserir a moda do terno branco, o chá, a cerveja o whisky o bife com batas, o pijama de dormir, o escotismo e o futebol.
Sem contar as inúmeras palavras inglesas incorporadas à nossa língua, que se aglutinou em todos os seus setores, ganhando verbos como chutar, driblar, boicotar, boxear, esbofetear, liderar. São ingleses o craque, o turfe, o iate, o esnobe, o rum, o cheque, o alô, o pudim, o revólver, o urra.

De qualquer forma, a influência inglesa no progresso industrial brasileiro pode ser medida pelas suas iniciativas nesse campo. No Brasil, as primeiras fundições modernas, o primeiro cabo submarino, as primeiras estradas de ferro, os primeiros telégrafos, as primeiras moendas de engenho moderno de açúcar, a primeira iluminação a gás, os primeiros barcos a vapor, as primeiras redes de esgoto foram, quase todas, obras dos ingleses.

A influência dos ingleses voltou-se principalmente para o campo dos serviços públicos - energia elétrica, transportes coletivos e ferrovias. Para se ter uma noção da importância dos ingleses na economia, basta lembrar que, durante esse período, aqui foram instaladas agências de três bancos ingleses: o London and Brazilian Bank, o British Bank of South America e o London and River Plate Bank.



PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. Ingleses no Brasil: um estudo de encontros culturais. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 227-230, novembro de 2001.

Ingleses no Brasil
um estudo de encontros culturais
MARIA LÚCIA GARCIA PALLARES-BURKE
RESUMO: O texto resenha Ingleses no Brasil, de Gilberto Freyre (Rio de Janeiro,
Topbooks, 2000).
anglofilia de Gilberto Freyre era notória e confessa. Sentia “um amor físico e ao mesmo tempo místico à Inglaterra” e chegou mesmo a admitir que às vezes pensava e até sentia em inglês. É por isso que ele já foi descrito como sendo, de fato, dois: o pernambucano “velho sábio de Apipucos” e o inglês. Até mesmo sua aparência era testemunha de seu lado anglófilo. Com seu paletó de tweed no Recife tropical, podia ser confundido com um coronel inglês a serviço de Sua Real Majestade, a Rainha da Grã-Bretanha. Nisso Freyre conta com precursores notáveis, como Voltaire, por exemplo, que também era um anglófilo confesso e se orgulhava do jardim à inglesa que construíra em Ferney, por onde vagava vestido à la gentleman inglês. No entanto, assim como em Voltaire, a anglofilia de Freyre não tem um interesse meramente anedotário. Ao contrário, o relacionamento, às vezes difícil e tenso, entre esses dois Freyres está na base dos traços mais inovadores e marcantes da interpretação da cultura brasileira desenvolvida pelo “sábio de Apipucos”. Ingleses no Brasil é um dos felizes resultados do relacionamento desses dois Freyres. Publicado no Rio de Janeiro em 1948, mas raramente mencionado em estudos sobre a formação de nossa cultura e jamais traduzido, nem mesmo para o inglês, este estudo rico e pioneiro dá, no entanto, uma contribuição essencial ao projeto freyreano, iniciado com Casa-grande & senzala, de reconstruir o desenvolvimento do Brasil nos seus aspectos mais íntimos. Sem um estudo do impacto dos aspectos materiais e imateriais da cultura britânica na nossa formação, argumentava Freyre, seria impossível compreender a história e o ethos da cultura brasileira. Pela louvável iniciativa da editora Topbooks, esse estudo extremamente informativo, sugestivo e abrangente está novamente ao alcance dos leitores de língua portuguesa. Acrescido de um elegante, perceptivo e erudito prefácio de Evaldo Cabral de Mello e de um cuidadoso índice onomástico, Ingleses no Brasil é um livro que agradará não só aos interessados pela história de nossa formação, como também àqueles preocupados com questões gerais sobre encontros culturais e sobre métodos de estudos de tais encontros. À primeira vista pode parecer que Ingleses no Brasil é pouco mais do que um variado, colorido e, muitas vezes, confuso mosaico descritivo das marcas aqui deixadas por eles, especialmente no séc. XIX, quando o país se tornou o terceiro maior mercado externo da Grã-Bretanha. Tão marcante era então a influência britânica, que intelectuais ciosos de nossa brasilidade se queixavam que se estava “londonizando nossa terra”. Lendo as densas páginas desse livro, o leitor pode se inteirar de quanto a reeuropeização do Brasil se deveu aos ingleses. Uma pequena amostra dessa imensa dívida arrolada por Freyre pode incluir os primeiros telégrafos, bondes, e estradas de ferro; os hábitos de tomar banho de mar e o chá das cinco; a substituição das tradicionais venezianas de madeira pelas vidraças, dos sucos de frutas tropicais pela cerveja e chá, dos xales orientais pelas capas e chapéus; e até mesmo fantasmas
ingleses de tez e cabelos claros sendo incorporados ao nosso estoque de fantasmas nativos e morenos. Todavia, esse volumoso e pioneiro trabalho de pesquisa, por si só valioso, pois feito por mãos de um mestre, tem uma importância maior do que fazem supor seu caráter fragmentário e seu modesto subtítulo: “Aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil”. Por trás desse imenso inventário, essa obra contém o que se poderia chamar de um “manifesto para uma história antropológica”; ou melhor, um quase-manifesto, considerando que a característica leveza e informalidade do discurso freyreano, tão pouco afeito à sisudez e ao rigor acadêmico tão comumente associados a manifestos, estão aí muito presentes. Partindo da premissa de que os personagens mais ilustres e os fatos mais grandiosos contam só uma parte da história, Freyre mostra que para se conhecer as influências de uma cultura sobre a outra é necessário se estudar os personagens mais obscuros e os “pormenores significativos”. São os mecânicos, foguistas, maquinistas e outros “marias-borralheiras da história” que revelam os aspectos menos grandiosos, mas mais humanamente significativos das influências culturais. É assim que, na linha que viria a ser defendida décadas mais tarde por historiadores como Carlo Ginzburg e Natalie Davis, Freyre insiste em Ingleses no Brasil que o estudo dos fatos aparentemente miúdos e irrelevantes do cotidiano doméstico, das oficinas, dos bastidores das estradas de ferro etc, pode ser uma grande via de acesso aos fenômenos mais gerais do passado de uma cultura, um modo de combinar, na recuperação histórica, o social com o pessoal, o universal com o individual.
Duas são as fontes que Freyre privilegia nesse seu pioneiro estudo psico-social do encontro cultural Brasil-Inglaterra: a correspondência consular (não rigorosamente diplomática) e o anúncio de jornal. Fontes até então “marginalizadas pela história política”, é nelas que Freyre foi buscar os substitutos para o trabalho de campo do antropólogo, como bem lembra Cabral de Mello. Revelando as relações culturais, tais como se manifestam não nos grandes eventos políticos ou diplomáticos, mas no dia a dia da sociedade, essas fontes falam sobre o que os documentos oficiais se calam. Não só o fato único é aí registrado, mas também o recorrente e miúdo, que “sem importância, a princípio”, torna-se “sociologicamente significativo” quando repetido. Os anúncios, em especial, nos dão acesso ao fenômeno de anglicização em pleno processo. Os leilões, tão populares no séc. XIX, diz Freyre, eram verdadeiras “aulas práticas de europeização” e seus anúncios são preciosos para a recuperação de nosso passado. Anos antes de publicar esse livro Freyre confessara que vira Portugal com “olhos de inglês”, pois estava “impregnado de literatura inglesa”. Podesse dizer que o mesmo se repetia no caso brasileiro e que Freyre estava a ver seu próprio país, aí incluíndo os ingleses no Brasil, também com “olhos de inglês”. Esse seria, assim como fora para Voltaire, seu olhar antropológico. Guiado e inspirado pelas qualidades retratistas de um grande rol de britânicos – ensaístas, romancistas, memorialistas, missionários, cientistas e técnicos – que eram ou exímios na “técnica da fixação do pormenor significativo” ou na arte de relatar fiel e minuciosamente o que viam, Freyre teria adquirido distância e se predisposto a perceber aspectos não notados por outros estudiosos. É a partir de tal distância que ele passa então a ver o encontro das culturas britânica e brasileira como um fenômeno que era inadequadamente abordado pelas visões extremistas dos “patriotas sonhadores”, para quem o capitalismo colonizador, com seus “dentes de piranha”, só trouxera malefícios ao país. Ao contrário, como parte de uma história multifacetada, feita de nuances e avessa a polaridades, esse encontro envolvera – é o que Freyre procura mostrar – resultados imprevisíveis e desconcertantes, que abalam a crença em pretos e brancos absolutos. Afirmar, por exemplo, que as estradas de ferro unicamente serviram aos interesses do capitalismo britânico e da monocultura escravocrata é se contentar com “meias-verdades”, pois elas também prepararam o caminho para a policultura democrática e para a legislação em defesa do trabalhador. Do mesmo modo, uma história atenta aos claro-escuros das relações entre culturas, que os “pormenores significativos” revelam, terá olhos não só para ver a penetração da mais rica e dominante na mais pobre e subalterna, mas também para entrever aspectos menos visíveis do processo de “interpenetração de culturas”. Sim, pois se a Inglaterra aqui provocou uma “revolução branca, suave”, ela também enfrentou resistências, teve de se acomodar à cultura local e foi, em algum grau, penetrada pela cultura invadida. Pois não há dúvida, segundo Freyre, que enquanto o Brasil era maciçamente anglicizado, os ingleses também se abrasileiravam. Resta saber o que eles levavam na sua bagagem de volta, além das coleções de borboletas e dos exóticos papagaios e macacos, do gosto pelo doce com queijo e dos móveis de estilo feminino, curvo e gracioso (em substituição a seus móveis angulosos de “linhas anglicanamente secas”). Dentre os muitos estudos sugeridos por
Freyre, este também ainda está para ser feito.


Recebido para publicação em agosto/2001
PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. The English in Brazil: a study on cultural encounters. Tempo
Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 227-230, November 2001. ABSTRACT: This text is a review of Ingleses no Brasil by Gilberto Freyre (Rio de
Janeiro, Topbooks, 2000).
KEY WORDS:
Brazilian culture,
British culture,
anthropology,
history.